vendredi 16 janvier 2015

Fraternidade com responsabilidade

Fraternidade com responsabilidade



Uma série de assassinatos, vitimando pessoas pacíficas e desprotegidas que jamais pregaram ou defenderam a violência, enlutou e emocionou os franceses e despertou generalizadas e comoventes expressões de fraternidade, às vezes surpreendentes por aproximarem pessoas, grupos sociais, comunidades de diferentes etnias e diversas convicções religiosas, assim como lideranças políticas opostas, tendo sido deixadas de lado todas essas diferenças e divergências, registrando-se, em manifestações coletivas e nas relações individuais, muitas demonstrações de respeito pelo outro e de espírito de fraternidade.



Um dado muito positivo, que deve ser registrado e louvado, é o fato de que aqueles assassinatos, praticados com extrema crueldade, provocaram um despertar de consciências, não só do povo francês, o que já seria muito positivo, mas em plano internacional e com muita força, a tal ponto que nos atos públicos programados para manifestação de solidariedade às vítimas, condenação de todas as espécies de violência e exortação da fraternidade, e que ocorreram em Paris e em em muitas outras cidades francesas, estiveram presentes milhões de pessoas, registrando-se que essa foi a maior de todas as manifestações coletivas ocorridas na França até hoje. Na gigantesca manifestação parisiense estiveram presentes nacionais e estrangeiros, pessoas de diferentes etnias e das mais diversas confissões religiosas, o que ficou evidente pelas diferenças de trajes e de complementos das vestimentas. Todos caminhando juntos, muitos ostentando cartazes e símbolos que identificavam sua pertinência a diferentes segmentos sociais. E todos deixavam evidente sua grande alegria por participar daquele evento, por ter a possibilidade de manifestar ostensivamente o seu respeito pelo outro e seu espirito de fraternidade e de verificar e sentir que esse era o sentimento de todos os demais participantes, num congraçamento que antes muitos julgariam impossível.



A par desse congraçamento popular altamente expressivo, registrou-se também a presença das mais altas autoridades da França e de muitas outras partes do mundo, vendo-se, lado a lado, em atitude de confraternização, líderes políticos da mais alta expressão, de países que vivem relações conflituosas, assim como personalidades políticas nacionais representativas de facções opostas e altos dignitários de diferentes confissões religiosas. E o que se verificou foi uma explosão de boa vontade e de espírito de fraternidade, pois no final da manifestação, quando caminhavam para sair da concentração popular, todos, sem exceção, foram aplaudidos pelos manifestantes. Era a mais eloquente demonstração de que os atos de violência criminosa e as ameaças de sua reiteração não amedrontaram o povo e não tiveram nem terão o efeito de anular ou diminuir as resistências pacíficas e humanitárias.



Mas, além de registrar esses aspectos altamente positivos do relacionamento humano, evidenciados numa situação dramática, é necessária e oportuna uma reflexão sobre as causas daquelas ações extremamente cruéis e violentas, sobre a origem da formação daquela mentalidade assassina, assim como sobre as deficiências da inserção social que possibilitaram e possibilitam o envolvimento de pessoas, mais jovens ou menos jovens, em grupos e movimentos que se caracterizam por um radicalismo primário, pela intolerância e pelo mais absoluto desrespeito pela pessoa humana, quando contrariados em suas convicções e seus interesses. A par disso, é absolutamente necessária também a identificação da origem dos meios materiais que possibilitam a aquisição de armamentos e de todos os instrumentos de violência e agressão a pessoas, instituições e organizações públicas e privadas. É também indispensável que sejam identificados os mecanismos de organização e de atuação dos grupos vocacionados para as práticas antissociais, dando-se especial atenção aos meios de comunicação que são utilizados para a divulgação de mensagens e instruções, assim como para a exaltação das práticas de violência e dos que comandam essas organizações criminosas.



Especial atenção deve ser dada à formação dos jovens de ambos os sexos, de todos os segmentos da sociedade, incutindo-lhes, desde o início de sua educação escolar, a consciência do valor da pessoa humana, da igualdade essencial de todos os seres humanos, da existência de direitos fundamentais que são de todos e das comunidades. Devem ser incluídas nos currículos escolares disciplinas que enfatizem a natureza associativa dos seres humanos, a necessidade absoluta, que todos os seres humanos têm, da convivência com outros seres humanos, para satisfação das necessidades materiais, afetivas e espirituais, chamando a atenção também para a interdependência de todos os seres humanos, sejam quais forem sua situação social e suas condições econômicas. É preciso infundir a consciência da relação necessária entre direitos e deveres, preparando os jovens para o exercício responsável da cidadania. O parâmetro fundamental para a preparação dos jovens deverá ser o artigo 1° da Declaração Universal dos Direitos Humanos : Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir, uns para com os outros, em espírito de fraternidade.








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